Culto do Feio

Na linguagem comum o termo “feio” indica desvalor estético, o “desagradável que causa horror”, o desonesto: em suma, indica uma falha na criação humana, “porque o que é divino é sempre belo, o homem é que não tem entendimento suficiente para perceber parte da beleza da criação” como diz Aristóteles. Todavia é uma experiência frequente a de obras criativas/de arte poderem apresentar-nos não só conteúdos ou situações agradáveis/aprazíveis, como também conteúdos desagradáveis, dissonantes, agressivos: feios.
O reconhecimento do espaço que o feio ocupa na criação artística é, no que respeita à teoria, um facto substancialmente moderno que começa a manifestar-se por volta do século XVIII e que assume uma importância cada vez maior nos séculos XIX e XX, em paralelo com os fenómenos de “rejeição do belo” e da “procura do feio” como valor estético assumido, criando-se assim, nesta época, uma nova consciência entre o que definimos por “feio” enquanto privado de valor estético – um determinado objecto ou experiência possuem valor estético quando os preferimos em relação a outros, pelo prazer que suscitam em nós- e o que, embora qualificável como feio é no entanto capaz de produzir uma experiencia estética significativa.
O pós-modernismo, que começou a ganhar força no final dos anos 70, marca o eclipse do Estilo Internacional juntamente com todas as suas assunções: neutralidade, universalidade, racionalismo assim como, também anuncia a ruptura com a vibrante onda Pop dos anos 60. O Pós-modernismo caracteriza-se não só por uma mudança imagética de estilo, assim como por uma nova maneira de questionar e interpretar o mundo e as suas concepções, sendo a base deste estilo o conhecimento histórico e filosófico – fundamental à arte de criar- , que possibilita um entendimento “revolucionário” do presente e uma nova visão, quase que profética, do futuro. O pós-modernismo tem como base conceptual maior o desconstrutivismo, este que pertence a um campo mais alargado de estudos, o pós-estruturalismo. A desconstrução “não é um estilo nem uma atitude” – como referem Ellen Lupton e Abbott Miller no ensaio “Deconstruction and Graphic Design” 1994 – mas sim um modo de questionar os paradigmas existentes, e de fundar novas metáforas de representação, ou seja: “deconstruction is critical formmaking”, como é referido ainda no mesmo ensaio de 94. A inquisidora desconstrução rejeita a crítica “universal” do modernismo e propõe revelar o significado de um determinado – inicialmente eram apenas analisadas obras literárias- através do estudo de como a forma e conteúdo, sem simbiose, comunicam, uma característica que vem directamente do estudo de Fredinand Saussure “Semiotics”.
Quando falamos de desconstrução aplicada ao design gráfico, temos de referir o trabalho de J. Derrida. No seu trabalho “Of Gramatology”, o autor questiona o quanto a representação (das coisas ou conceitos) habita na realidade. Numa primeira fase, Derrida quebra com o paradigma tipicamente ocidental das dicotomias, – dentro/fora; realidade/representação; belo/feio; (…) – e é nesta quebra que o desconstrutivismo vai actuar, desmontando tais oposições, mostrando que os conceitos não têm necessariamente de ser oposições mas sim parte de um todo universal. O conceito de “feio” sempre foi uma questão polémica no que diz respeito a aceita-lo, não como uma oposição ao belo, mas sim como parte integrante do conceito de beleza, fazendo o “feio” assim parte da criação artística, enquanto possibilitador de experiencia estética. Foi com polémica que em 1992 foi visto o trabalho “Output” – amplamente discutido através da revista Emigre (nrº10 e 13)- dos estudantes de Cranbrook, principalmente por parte dos ávidos defensores do Modernismo, que acreditavam numa primeira instância, que com a “universalidade” conceptual e gráfica proposta pelo movimento, a procura formal relativamente ao design não estava estagnada, mas sim finalizada – como nos refere Ellen Lupton no ensaio “The Academy of Deconstructed Design”.
Se perguntar a uma série de pessoas, de variadas nacionalidades e idades (ou seja com as mais variadas culturas) o que é o “belo” – e refiro-me a belo numa dicotomia directa ao feio- , obterei certamente as mais variadas respostas, não chegando assim a uma conclusão homogénea do que é realmente o belo, tendo em conta que cada pessoa tem uma definição própria de belo. É com uma questão semelhante que Steven Heller introduz o ensaio de 1993 para a Eye Magazine “Cult Of The Ugly”, passando imediatamente ao leitor a ideia de que a definição de Belo ou Feio depende em grande parte do individuo, ou seja, é subjectiva. Para os alunos da Cranbrook Academy, o belo era o caos nascido de uma tipografia dissonante e de padrões abstractos. Utilizando a experimentação como uma ferramenta que permite questionar e, apoiados em conceitos como o desconstrutivismo e pós-estruturalismo, foi o que permitiu a estes alunos avançarem tanto a nível formal assim como ideológico em relação ao modernismo, contudo Heller salienta, e bem, que o valor da experimentação no campo do design não pode ser medido apenas pelo sucesso de tais experimentações, mas também pode e dever ser medido pelo fracasso das mesmas, tendo em conta – o autor justifica- que os ditos fracassos em muito contribuem para novas descobertas e paradigmas formais. A experimentação é assim – segundo S. Heller- o motor do progresso, sendo o seu combustível uma mistura equilibrada de instinto, inteligência e disciplina; mas o dito motor falha quando demasiado instinto e pouca inteligência ou disciplina são adicionados à mistura combustível, caso que ocorreu com algumas experimentações académicas decorridas no final dos anos 80 e inícios dos anos 90 em algumas academias artísticas dos EUA: o problema com o “culto do feio” no design gráfico da maioria das academias e dos seus alunos é que depressa se tornou um estilo quase que vernacular, que apela – a qualquer pessoa sem bases teóricas ou conceptuais – a uma cópia formal dos conteúdos; enquanto que os “pioneiros” do feio no design, estão a seguir as suas “musas inspiradoras”, os seus seguidores simplesmente assimilaram as características formais das suas obras, criando consequentemente trabalhos sem substância, caindo assim o “design” no ridículo.
O feio como ferramenta, arma ou até código é válido quando a forma segue uma função especifica e justificada, mas o feio pelo feio nada cria e tudo torna ridículo.

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