Design Moral (?)

As décadas pós-segunda guerra mundial, são décadas essenciais na afirmação do design enquanto profissão fundamental numa sociedade que se move cada vez mais rápido a nível social, tecnológico, artístico e ideológico. Victor Papanek no seu livro “Design for the real world” afirma que todos nós somos designers. Querendo ou não, o design faz parte de toda a nossa actividade enquanto seres intuitivos, pragmáticos e criativos.
Nos anos 60, 70 e 80 as massas adquirem uma nova compreensão sobre o que é o design e as ínfimas possibilidades do mesmo, passando este a ser tido como uma “ferramenta” essencial ao desenvolvimento. É desta forma que, aliadas ao design, cidades, culturas e economias vão crescer sofregamente: os designers associam-se a grandes corporações segurando assim nas mãos o elixir do progresso e, pondo em causa o planeta em que habitamos e até a nossa própria existência enquanto espécie.
A palavra progresso advém do latim (progressus) e significa “marcha para diante”; “desenvolvimento”; “adiantamento”, mas será que podemos chamar de progresso a algo que à posteriori mete em causa os princípios básicos à vida? Foram no mínimo três gerações que falharam em pensar no design de forma responsável – não me refiro exclusivamente aos designers; apesar destes terem uma acrescida responsabilidade, concordo com J. Thackara quando este afirma “There are many things wrong with design in our world, but designers, as a group of people, are not the problem. (…) This kind of blaming and shaming is counterproductive and unjustified. (…)no designer that I met set out to wreck the planet, force us to eat fast food, or make life miserable.”- direcionando-o não só para as gerações presentes como também para as futuras, tendo em conta temas como a sustentabilidade, a utilidade, a longevidade (objecto) e o impacto sociocultural.
O design à muito que deixou de ser restrito a alguns campos de eleição para alastrar-se a toda a esfera social, tornando urgente repensar o que se comunica –neste caso o design de comunicação-, como o fazemos e com que meios. É necessário cada vez mais, que os designers – e porque não, todos nós?- tenham consciência que até as mais pequenas acções do design, podem ter grandes consequências, estas -as acções- que têm a capacidade de transformar a natureza cultural das sociedades. É esta capacidade de criar e moldar culturas e sociedades que se torna catastrófica se atribuirmos essa tarefa a alguma identidade que não tenha como factor motor da sua acção um pensamento global e uma visão antecipada das consequências da mesma – eg. armas de destruição maciça.
É apoiada neste paradigma, que nos foi legado, que sublinho a necessidade da ética e da crítica como base estruturante da profissão do designer. A ética, conhecida por muitos como a “ciência da conduta”, é a parte da filosofia dedicada ao estudo dos valores morais e princípios ideais do comportamento humano. Que fazer então quando, todos os humanos têm noções morais (eg.  bem e mal) diferentes? É claro que sempre podemos criar “códigos de conduta profissionais” – (eg. Ética médica) que, por norma são criados para a protecção dos nichos profissionais em questão e não da biosfera em geral – mas a solução não passa por “formatar” pessoas a nível moral, mas sim consciencializa-las e incentiva-las à mudança, transformando culturas, economias: sociedades.
Em modo de conclusão e citando o professor Aurelindo J. Ceia, “pede-se ao designer que não intervenha no social com mais uma carrada de projectos, isto é, com mais objetos, mas sim fazendo uma crítica do objecto enquanto elemento integrado num conjunto coerente”: o mundo.
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Referências Bibliográficas
1. “Art and academe: a journal for the humanities and sciences in the education of artists”, vol. 7, Spring 1995 _ Visual Art Press, Ltd.
2. “Architecture and design”, Victor Papanek, 1995 _ Edições 70
3. “In the bubble: designing in a complex world”, John Thackara, 2005 _ MIT Press
4. “Good: an introduction to ethics in graphic design”, Lucienne Roberts, 2006 _ AVA Publishing
5. “Discovering design: explorations in design studies”, Victor Margolin & Richard Buchanan, 1995 _ The University of Chicago Press
6.”Design for the real world” Victor Papanek, 1971 _ Thames and Hudson
7. “Uma poética visível: o design gráfico de Aurelindo Jaime Ceia”, catálogo, 2007 _ FBAUL
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Luísa Brito 2013

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