João Penalva – CAM 2012

João Penalva, um dos mais internacionais artistas portugueses, apresentou no Centro de Arte Moderna de Lisboa uma grande exposição antológica que permite ao espectador conhecer o carácter abrangente da sua obra – desde pintura a instalações; fotografia a texto.
As suas obras – e a maneira como estão organizadas no próprio espaço1 – transportam o espectador para um filme quase que bucólico narrado pelo próprio artista, o que denota-se sobretudo pela simbiose entre o texto e imagem onde a palavra não explica a imagem nem vice-versa mas sim complementam-se: o artista recria a sétima arte.“O modo de como nos ligamos ao mundo é mediado por imagens, pois que estas nos são vitais.”2 Na arte de Penalva o conceito de imagem vai mais longe, abdicando do mundo e criando o inexistente etéreo: realidades escapatórias à ilusão do real – escapatórias à mentira da vida. Ilusionista e manipulador, este universo artístico joga com a nossa memória, com os lugares comuns, os clichés perceptivos e obriga-nos a uma permanente interrogação sobre a realidade, o mundo, as relações humanas, o tempo e o espaço. Na obra de Penalva é-nos imperceptível identificar o que é real e o que não é, fazendo-nos de certa forma lembrar um filme de Hitchcock, onde tudo é o real e o real é nada. Fortemente influenciado pelo misticismo japonês, o artista presenteia o espectador com fotografias simples formalmente, mas grandiosas no seu conteúdo expressivo, que exigem do espectador uma reflexão mais complexa; a arte de Penalva é como o pincel para os japoneses, o meio que permite a criação de imagens e texto sem nunca descurar o toque pessoal de quem o utiliza Ler e ver, ler ou ver são assim actos fundamentais na obra de Penalva. Tanto o ler como o ver implicam desde logo interpretação: interpretamos uma imagem tal como interpretamos uma frase de um texto é evidente que o contexto onde as imagens estão inseridas determina os campos de interpretação: interpretamos uma imagem consoante a imagem que vem antes ou depois ou a duração do plano da mesma imagem. É de ter em atenção que quando falamos de imagens, falamos de tudo o que os nosso olhos captam, como tal temos instalação, outra vertente da Minimal Art, presente nesta exposição. As instalações têm formalmente as mesmas características que as imagens, simples formalmente mas com um conteúdo interpretativo muito vasto, e uma vez mais temos o texto como continuação da obra. Concluindo, Ler e olhar são, fundamentalmente, as acções que as obras de João Penalva nos demandam, numa interpretação cuja complexidade se encontra no seu carácter misto e dúbio. Por vezes o texto contradiz a imagem, por vezes a imagem contradiz o texto, por vezes complementam-se harmoniosamente. No entanto, os dois elementos inauguram sempre um acto de diálogo entre eles, para que depois haja espaço para o espectador comunicar com a obra.

1. O espaço onde a exposição se encontra patente transmite-nos a ideia de cenário, confirmando a ligação entre a obra de Penalva e o cinema, levando o espectador para uma “outra dimensão”

2. Bragança, José Bragança de, Corpo e Imagem. Lisboa: Vega, 2008, p.8

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