Neville Brody + Punk

Os anos 80 ficaram marcados, em Inglaterra, por uma série de contrastes que na sua génese, culminaram em mudanças fundamentais na história das sociedades e artes europeias.  Se no início da década temos uma catastrófica recessão económica, no fim da mesma testemunhamos prosperidade económica e social (algo impressionante tendo em conta o curto espaço de tempo) por parte das classes altas Inglesas. Tais mutações, quase que instantâneas aumentaram – consequentemente – com as diferenças sociais: os ricos ficaram mais ricos e os pobres mais pobres.
É neste contexto que a classe inferiorizada – sobretudo os jovens – vai se auxiliar da música, nomeadamente o punk,  para se fazer ouvir. Esta geração de rebeldes foi fortemente influenciada pela subcultura punk de Nova Iorque que chegou a Inglaterra em 1976 com a tournée dos Ramones, marcando uma geração por ideologias anarquistas, novas maneiras de vestir assim como de ser e estar em sociedade.
É num meio juvenil estruturado sob estes ideais, que Neville Brody em 1988, é conhecido como um dos mais influentes designers da sua geração, destacando-se pelas suas ideologias experimentalistas em relação ao design e, aplicadas no seu trabalho.
Neville Brody nasceu em 1957 em Southgate, Londres um local designado como o “ponto neutro” entre duas realidades opostas: o ofuscante néon das luzes comerciais de West End, e o verde rural de Hertfordshire.
Desde tenra idade manifestou uma grande aptidão e interesse pela arte, em particular a pintura, e como forma de aprofundar e especializar-se na matéria, ingressou em 1975 num curso de “arte eruditas”, na Hornsey College of Art.
Vivendo numa realidade mais próxima da criação e o mundo artístico (galerias, críticos de arte), Brody adquiriu uma renovada consciência relativamente às “artes eruditas”, estas que eram (e segundo muitos críticos ainda são) extremamente elitistas, o que chocava agressivamente com os ideais de Neville Brody: “I wanted to communicate to as many people as possible, but also to make a popular form of art that was more personal and less manipulative.”
Insatisfeito no meio elitista em que estava inserido, viu no design gráfico uma disciplina com grandes possibilidades de complementar aos seus ideais.
Em 1976 ingressou num curso de design gráfico na conceituada universidade londrina, London College of Printing.
Apesar da universidade ser internacionalmente reconhecida pelos excelentes planos de estudos, Brody achou o ambiente da mesma repressivo e conservador.
Os seus professores rotularam desde cedo o seu trabalho de “não comercial” e de “anti-design” o que demonstra perfeitamente o método “seguro” de ensinar design na LCP (os professores baseavam-se nos exemplos de design já feitos por outros autores e impunham que os seus alunos fizessem igual) o que não permitia aos educandos experimentar e arriscar em algo de inovador.
Em 1977, um ano após ter entrado para a LCP, a cena musical começou a influenciar drasticamente a vida londrina, grande parte devido à tournée da banda nova iorquina Ramones, que chegou a Londres em Julho de 1976.
Brody encontrou neste género de música, que tinha como base ideologias anarquistas e liberalistas, o catalisador que tanto precisava para levar os seus ideais avante no que diz respeito ao design: “I felt that if you want to react against anything, you had to learn about that thing totally. But LCP was giving me nothing but grief. Punk hit me fast, and it gave me the confidence I needed. What really did it for me was Wire’s ‘Pink Flag’, and specially what they said at the time – that you should pursue an idea, do it, stop, then go on to the next one.”
Nesse mesmo ano, para a sua tese de final de curso, Brody efectuou estudos exaustivos sobre o Dadaísmo e a Pop Art, comparando-os numa fase final.
O Dadaísmo, um movimento que punha em causa a validade da arte ao afirmar que esta havia morrido e que não passava de uma industria que nada tinha de útil para o homem, encaixava-se perfeitamente na maneira de pensar anti-eslitista de Brody: “Dadaism embraced the means of the destruction of art (…) it was saying that art too, in its previous role, was dead. It was a period of crisis when art was looking to itself and saying ‘why does art exist?’ but of course there is no why. In certain sense art died with Duchamp and his ready-mades. It reached the ultimate statement that art is whatever you say it is (…).” “Art is no longer a serious and weighty emotional stimulus, nor a sentimental tragedy, but the fruit of experience and joy in life”
A Pop Art, por outro lado é, relativamente redundante no que diz respeito aos ideais sobre os quais se ergue, mas na sua forma mais pura, é uma arte puramente comercial, que mais parece um exercício de marketing: “Pop Art whilst it was very influential on punk, was really a commercial art and this it promoted in a way that made anti-commercial images acceptable.”
A comparação de ambas torna-se válida a partir do momento em que estas se complementam tanto a nível ideológico como formal, tendo sido esta tese um marco fundamental para perceber a linguagem gráfica de Neville Brody.
Brody, é também fortemente influenciado pelo trabalho de William Burroughs, Brion Gysin, Man Ray, Laszlo Moholy-Nagy, mas sobretudo por Rodchenko o qual subverteu a noção convencional de artista, experimentando além dos materiais usuais, quebrando barreiras entre a arte e outras áreas.
Acabado o curso em 1979 na LCP, Brody começa a trabalhar para a Rocking Russia uma empresa de design, na altura chefiada por Mcdowell, cujo trabalho Brody era fã: “The record shop was just as valid a showcase as the framed environment of art galleries… I thought this area was the only one that would offer any chance of experimentation”.
Anos mais tarde em 1981, conhece Rod Pearce o fundador da Fetish Records, este que convida-o para ser director artístico da empresa, tendo assim outro tipo de liberdade no processo da criação, em simultâneo foi convidado para ser o director artístico da revista The Face.
Em 1994, Neville Brody cria o seu próprio estúdio, Research Studios, sendo o local de trabalho de Brody até aos dias de hoje.
Apesar do punk estar muitas vezes na cultura do senso-comum restritamente ligado à música, há que entender que existem outras áreas que dele emergiram ou simplesmente foram influenciadas, tais como: as artes performativas, a literatura, a filosofia, a sociologia, a moda e o cinema.
Desde o seu aparecimento nos EUA e UK, em meados  dos anos 70, que o punk, enquanto modo de vida, cresceu abundantemente por todo o mundo, influenciando cada vez mais áreas artísticas assim como sociais.
A cena punk foi fortemente influenciada pelo anarquismo, niilismo, dadaísmo, futurismo, pop art assim como pela literatura de Charles Dickens e George Orwell.
O punk surgiu contra a austeridade implementada após a segunda grande guerra mundial; surgiu de uma necessidade nada poética de libertação que depressa se converteu em libertinagem: o Homem deixa de ser subordinado para ser subordinante, onde ele é quem faz as regras e quem não as cumpre: o céu é o limite.
A música fortemente associada ao movimento do punk, foi a expressão artística mais utilizada, mas não a única, para exprimir sentimentos de raiva, opressão, libertação e angustia. É um movimento que no seu culminar se enquadra filosoficamente pela busca da entidade própria de cada ser.
Nesta altura os ideais catalisadores de um álbum, passam a ser a grande preocupação dos artistas e como tal, as suas capas tinham de estar de acordo com as ideologias vinculadas nas músicas. Os designers passam aqui a ter toda a liberdade criativa, segundo os ideais passados pela música, o seu trabalho deixa de ser visto somente como “solução de problemas” e passa a ser visto como algo artístico, o que foi fundamental para o design: fazer capas passa a ser reconhecido como uma parte integrante e fundamental do design.
Neville Brody destaca-se por ter sido pioneiro nesta nova maneira de ver o design gráfico.  Em 1981 ao tornar-se director artístico da Fetish Records, Brody ganhou uma nova força motoriz que o levou a falar mais alto os seus ideais, numa tentativa de chegar um novo tipo de design às massas.

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