Arte, Ciência e Tecnologia – Post 1

Este texto faz parte de uma Plataforma pessoal da actividade académica no mestrado de design de comunicação e novos media / FBAUL / 2013-2014.

“De quando em quando na história da cultura, os artistas debatem-se com o problema da sua situação no plano da sociedade e da relação da actividade artística com outros ramos do saber. Quando os poderes estão plenamente cientes da importância das artes, a questão passa para segundo plano ou é quase esquecida, para depois voltar a aflorar. Temos então de decidir se é mais importante para a Humanidade a descoberta da penicilina por Fleming, ou o tecto da Sistina por Miguel Ângelo, quando afinal se poderá dizer ironicamente que uma “salva corpos” e outra “salva almas” ou simplesmente as alimenta espiritualmente.” Investigação e Arte: Uma floresta, Muitos Caminhos” Coordenação de José Quaresma, Texto de Margarida Calado -CIEBA FBAUL, Lisboa 2010

 A partir do Iluminismo, século XVIII, dá-se uma separação significativa entre os Homens das Artes e os Homens das Ciências. O artista deixa de ser visto como um ser multifacetado, como é o caso de Leonardo DaVinci, cuja curiosidade leva-o à experimentação contínua, para passar a ser visto como o contemplador sentimental do etéreo sublime, típico do romantismo, deixando a razão para o homem pragmático e eloquente, futuro catalisador da Revolução Industrial. No entanto, no século XX, com o surgimento de novas tecnologias (primeiramente associadas a actividades militares e depois alargadas a uma esfera de massas) e com a aceleração das sociedades, torna-se óbvia a simbiose entre arte e ciência.

Ao ler e analisar o texto “As We May Think (1945)” de Vannevar Bush e o texto “The Construction Of Change (1964)”; de Roy Ascott, é-me possível perceber a antevisão profética da evolução da relação Homem-Máquina ao longo dos tempos. Ambos os autores têm a particularidade de ver o estudos desta dita relação como um ramo crescente e de grande importância, sendo o estudo desta relação Homem-Máquina uma ferramenta essencial para perceber sistemas económicos, políticos, sociais e culturais complexos.

Vannevar Bush, numa primeira abordagem, questiona qual a importância das ciências para o Homem moderno, chegando a conclusões interessantes (“First, they have increased his control of his material environment. They have improved his food, his clothing, his shelter; they have increased his security and released him partly from the bondage of bare existence.”) que se complementam com o texto de Ascott quando este junta a ciência com a arte.

Segundo Ascott há alguns aspectos da actividade artística moderna que podem ser analisados racionalmente (método científico): o comportamento e a interacção do espectador com a obra de arte. A arte, segundo o autor, é uma forma de livremente desenvolver ideias e de criar formas que corporizem o mais fielmente possível as mesmas, estas que devem ter sempre em conta o espectador e antecipar uma determinada interacção entre a obra de arte e o público.

É através da ciência de Vannevar Bush que o espectador tem o poder de se relacionar e de interferir no processo artístico presente. Uma vez posicionado perante um trabalho o espectador pode se tornar totalmente envolvido (fisicamente, intelectualmente e emocionalmente). Para projectar as ideias, o artista cria limites dentro dos quais o espectador pode agir como resposta a pistas comportamentais (puxar, deslizar, abrir …) tornando-se assim, o participante, responsável pela extensão do significado da obra.

O artista pode assim auxiliar-se de áreas da ciência de forma a ter um entendimento mais concreto do mundo envolvente e dos processos interativos e complexos de comunicação. A ciência tem muitos campos altamente especializados, de forma que se torna quase impossível ao homem analisa-los a todos, contudo a cibernética tem a característica de ser uma ciência integrativa, juntando muitas áreas científicas diferentes. Segundo Ascott a cibernética é a ferramenta que faltava ao homem para melhor compreender o mundo que o rodeia, o complemento da mente. Também, Vannevar Bush no seu texto relata a importância da ciência apliacada a outras áreas de estudos, tais como a arte, sendo a cibernética o exemplo perfeito. A relação do Homem com o ambiente que o rodeia está a mudar. Como resultado da eficiência cibernética, o Homem encontra-se cada vez mais como um “prosumer”.

Concluindo, a máquina, objecto de estudo de Bush, auto-regulada e super adaptativa está entre o Homem e o mundo tal como a arte de Ascott está entre o artista e o espectador. A máquina aumenta a percepção do Homem, passando este a experienciar o mundo através dos sistemas artificiais que ela oferece e que ironicamente foram por ele criados, o que nos leva que a cibernética não está apenas a mudar o mundo, está também a mudar a nossa maneira de estar e de vivê-lo.

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Bibliografia

1. “The Construction of Change” por Roy Ascott, originalmente publicado in Cambridge Opinion 41,

2.”AS We May Think” por Vannevar Bush, originalmente publicado in The Atlantic Monthly 1945

3. “The Ecstasy Of Communication” Jean Braudrillard, Éditions Galileé 1988

4. “Investigação e Arte: Uma floresta, Muitos Caminhos” Coordenação de José Quaresma, Texto de Margarida Calado, CIEBA FBAUL, Lisboa 2010

2 comments
  1. No 3º parágrafo não se percebe a ligação do texto depois da citação (talvez o ‘estas’ esteja a mais). R. não é nada. Ou se coloca o apelido só, ou o nome completo. Sou adepto da primeira solução desde que o citado conste das notas bibliográficas.
    Não entendo o link ‘ciência com arte’. Já o da Tate me parece mais esclarecedor. Terás de ser mais precisa na utilização das referências e procurar que o utilizador aceda aos documentos sem problemas.
    Terás de potenciar a informação que utilizas referindo outros autores e outros objectos.
    A ideia de ‘prosumer’ aparece caída do céu. Há que explicar o seu contexto.
    Consulta a revista Comunicação e Linguagens, nº 25/26, Real vs Virtual http://www.recensio.ubi.pt/modelos/revistas/revista.php?cod=Revista+de+Comunica%E7%E3o+e+Linguagens#25/26
    Nos futuros Posts tenta explorar mais as possibilidades hipertextuais deste medium. Destaca com outra cor os links.
    Deverás, também, procurar que o conteúdo do Post seja apresentado sistematicamente, ou seja, com uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão.
    Prof. Victor M Almeida
    /

  2. Pingback: [ design ]

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