Arte, Ciência e Tecnologia II – Post 2

Este texto faz parte de uma Plataforma pessoal da actividade académica no mestrado de design de comunicação e novos media / FBAUL / 2013-2014.

“The eye you see isn’t an eye because you see it; it is an eye because it sees you.”1

“Como carregamos uma imagem de nós próprios baseada nos princípios letrados da Renascença, não conseguimos reconhecer que as tecnologias electrónicas, do telefone à realidade virtual, estendem o nosso ser físico muito para além dos limites da pele”2

Em 1966 Billy Kluver, Robert Rauschenberg, Robert Whitman e Fred Waldhauer ao criarem o grupo Experiments in Art and Technology (E.A.T.), quebraram de certa forma com a dicotomia arte e tecnologia ainda muito presente na sociedade de então, para tornar o Homem (e o acto mais puro que deste advém, o acto de criar) e a máquina num só. A arte e tecnologia unem-se aqui numa tentativa de ser uma extensão do próprio Homem, e como parte deste penetrar no etéreo entendimento do mundo. Billy kluver no seu texto “The Garden Party” explica-nos a relação entre o artista e a tecnologia, baseando-se numa obra de arte (“Homage to New York”) criada pelo mesmo com Jean Tinguely, artista plástico.

Em “Homage to New York” ambos criam uma obra de arte mecanizada que se auto-destrói, criando assim uma conexão directa entre o acto criativo e tecnológico do artista e do cientista, e o acto receptivo do público, quebrando com a noção de temporalidade tão imposta pelos museus (“The art of the museu mis related to a past time that we cannot see and feel again… L’art éphémère, on the other hand, creates a direct connection between the creative act of the artista and the receptive act of the audience, betwenn the construction and the destruction”3). Para Kluver assim como para Tinguely, um factor a valorizar é o público e a interacção real deste com a obra de arte, aspecto primeiramente abordado pelo artista Roy Ascott. É escrevendo também sobre o “Pepsi Pavilion” criado pelo grupo E.A.T. que Kluver destaca uma vez mais a importância da participação do espectador no ambiente artístico criado, destacando assim a importância da tecnologia como aproximadora do Homem com Real: “O artista pode assim auxiliar-se de áreas da ciência de forma a ter um entendimento mais concreto do mundo envolvente e dos processos interativos e complexos de comunicação”4.

Por sua vez, já em 1977 Alan Kay e Adele Goldenberg propõem criar um outro tipo de relação entre o Homem e a Tecnologia, ao idealizarem o “computador pessoal”. No texto escrito por ambos “Personal Dynamic Media” os autores projectam o computador pessoal como uma ferramenta que extende os sentidos do seu utilizador, fazendo com que seja este mesmo utilizador (que podia ser uma criança, um empresário ou até uma dona de casa) a gerir a sua própria rede de conhecimento de acordo com os seus interesses. Os autores idealizam este computador com uma série de características até à data inovadoras e relevantes, tais como o facto de existirem diferentes tipos de fontes que facilitavam a leitura dos textos e o facto de ser possível editar os textos em questão adicionando informação; contudo o aspecto salientado no texto profético, como algo de realmente inovador (apesar de hoje nos parecer óbvio) seria a capacidade  de dar aso à criação artística através deste interface (“Suppose it had enough power to outrace your senses of sight and hearing, enough capacity to store for later retrieval thousands of page-equivalents of reference materials, poems, letters, drawings, animations, musical scores, and anything else you would like to remembre and change”5).

Em forma de conclusão, é de salientar a perspicácia destes cientistas e artistas, em trazer à tona uma faceta mais pura quase que sensível da tecnologia, fazendo uma simbiose da mesma com a arte e tornando  a tecnologia mais pessoal e confidencial, abrindo horizontes e complementando áreas do saber até então negligenciadas.

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1. António Machado citado por Derrick Jensen em “Welcome to the machine” Chelsea Green Publishing 2004, Canada

2. Derrick de Kerckhove em “A Pele da Cultura” Relógio D’Água Editores1977, Lisboa

3. Billy Kluver em “The Garden Party” em Zero1 1961 NY

4. Luísa Brito em https://lmbbrito.wordpress.com/2013/10/31/post-1/ (visitado a 05-11-2013)

5. Alan Kay e Adele Goldenberg em “Personal Dynamic Media” Março de 1977

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Derrick Jensen “Welcome The Machine” Chelsea Green Publishing 2004, Canada

Derrick de Kerckhove “A Pele da Cultura” Relógio D’Água Editores1977, Lisboa

Joke Brouwer “Art and D” V2 Publishing 2005, Roterdão

Alan Kay e Adele Goldenberg “Personal Dynamic Media” Computer 10 Publishers, 1977

Billy Kluver “The Garden Party” Zero1 Publishers 1961, NY

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