O bom, o mau e a Internet.

Durante as últimas décadas do século XX a tecnologia electrónica e informática avançaram a um ritmo exorbitante, revolucionando muitas áreas da actividade humana. As relações interpessoais/entre estruturas assim como a comunicação, não foram excepção  tendo estas também sido irrevogavelmente transformadas pelo desenvolvimento acelerado das ditas tecnologias.

Foi em 1977 que surgiu pela primeira vez a idealização de “computador pessoal” (associado às promissoras capacidades da Internet) por Adele Goldenberg e Alan Kay; no texto Personal Dynamic Media, escrito por ambos, os autores projectam o computador pessoal como uma ferramenta que extende os sentidos do utilizador, fazendo com que seja o próprio utilizador a gerir a sua própria rede de conhecimento, de acordo com os seus interesses. A simbiose entre o computador pessoal e a Internet permitiria por sua vez ao homem, desenvolver o seu intelecto de uma forma nunca antes concebida.

Passados cerca de quarenta anos desde a publicação deste ensaio profético, é-nos possível concluir rápida e superficialmente que a recepção em nossas casas dos ditos aparelhos interligados a uma rede infinita de comunicação, revolucionou a maneira como o homem vive e encara o mundo.

Grandes estudiosos da Internet e das relações implícitas entre a mesma e o homem, argumentam em lados opostos, relativamente ao impacto desta na sociedade em geral: Estará a internet a destruir as nossas aptidões sociais? Será o mundo virtual um escape ilusório ao mundo real? Estará a internet e as novas tecnologias a criar novas gerações de adultos atrofiados socialmente? Ou, será a internet um bom sistema e recurso para enfrentar as grandes crises do mundo? Será realmente a internet e todos os sistemas a ela ligados uma ferramenta útil de subversão de sistemas (e.g. económico)?

A verdade é que é-nos de certa forma impossível deixar para trás a dicotomia bom/mau, certo/errado (também) no que diz respeito ao uso dos computador e programas a ele associados. Sherry Turkle na TED Talk “Alone Toghether” alerta-nos para o malefício que a internet está a causar sobretudo à nossa capacidade de comunicar oralmente, assim como de interagirmos em sociedade.  A conectividade constante, tanto no computador como noutros dispositivos transporta-nos constantemente para um universo paralelo –e aqui falo sobretudo relativamente aos jogos de computadores, chats e redes sociais- que nos oferece a ilusão de companheirismo sem as obrigações pessoais e morais que uma verdadeira relação de amizade e companheirismo exigem.  É nesta ilusão que nos fixamos e onde criamos a nossa cyber-reputação, esta que é idealizada e abstracta; um manto de invisibilidade algorítmico que cobre os nossos erros e imperfeições, um escudo de fibra óptica que nos “protege” até ao momento em que saímos de casa e enfrentamos o mundo real como pessoas reais.

Na dicotomia bom/mau e certo/errado,  Turkle mostra-nos o lado mau história da Internet e das tecnologias associadas, contudo na outra face do jogo temos o estudo de Rachel Botsman que mostra-nos como utilizar de forma inteligente o sistema, subvertendo-o em nosso favor. É através de exemplos práticos que Botsman introduz-nos ao conceito de  “Consumo Colaborativo” ou seja, toda uma nova prática comercial que possibilita o acesso a bens e serviços sem que haja necessariamente aquisição de um produto ou troca monetária entre as partes envolvidas neste processo. Compartilhar, emprestar, alugar e trocar substituem o verbo comprar no consumo colaborativo. A ideia existente por trás do consumo colaborativo vai ao encontro das principais questões e tendências deste início de século XXI: novas configurações sociais decorrentes do advento da internet e do relacionamento em rede; preocupação com o meio ambiente e valorização de hábitos mais sustentáveis; recentes crises económicas de impacto global.

É sobre esta perspectiva mais positiva que percebemos o caracter duo  e ainda infantil da Internet, sendo esta uma grande ferramenta que nos facilita a vivência, mas é necessário ter em conta que o a consequência final adquirida através desta tecnologia será de certa forma apenas da responsabilidade de quem a utiliza.

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