Filosofia da Caixa Preta

 

Vilém Flusser foi um filósofo dos media nascido em 1920 em Praga na República Checa. Em 1940, aos 20 anos de idade tendo em conta que era judeu, Flusser refugia-se em Londres das tropas alemãs e em 1941 parte para o Brasil com a sua mulher, local onde permaneceu por 31 anos.

Flusser começou os estudos em filosofia ainda em Praga, continuando posteriormente a sua carreira académica em Londres e no Brasil. Os seus primeiros trabalhos são sobretudo marcados pelo pensamento alemão de Martin Heidegger(1) assim como pelo Existencialismo(2) e pela Fenomenologia(3), corrente esta que desempenha um papel importante no trabalho mais tardio do autor, nomeadamente na filosofia da comunicação e da produção artística.

O livro “Filosofia da Caixa Preta” foi publicado pela primeira vez na Alemanha em 1983(4) sendo a sua versão em português não uma simples tradução, mas já uma revisão pormenorizada da versão alemã. A história deste livro é bastante peculiar, começando pela atribuição do seu titulo: enquanto que a primeira versão recebeu o nome de “Fur Eine Philosofie Des Fotografie”(5) a versão para português teve o seu título modificado para “Filosofia Da Caixa Negra” permitindo ao leitor perceber melhor o universo conceptual em que a obra se insere. As alterações ao livro, foram todas providenciadas pelo próprio autor, escrevendo ele mesmo a versão em português. É de salientar que em 1984, data provável da redação da versão portuguesa, Flusser estava envolvido com a concepcção de “Ins Universum Der Technischen Bilder”(6) que era na verdade um desdobramento da “Filosofia da Caixa Negra” assim como uma resposta às inúmeras criticas ao ensaio, sendo esta a razão principal pelo qual esta obra em português é única e difere significativamente de todas as outras traduções conhecidas; neste sentido e para sermos fieis ao pensamento de Flusser, a versão em língua portuguesa é que deveria ser utilizada como modelo base para eventuais traduções.

Porquê caixa preta?(7) Sabemos que o termo vem originalmente da electrónica, onde é utilizado para designar uma parte complexa de um circuito electrónico que é omitido intencionalmente no desenho de um outro circuito maior e substituído por uma caixa vazia. No caso de Flusser, o conceito de “caixa preta” deriva mais propriamente da cibernética(8). Neste campo em particular dá-se o nome de “Caixa preta” a um dispositivo fechado e lacrado, cujo interior é inacessível e só pode ser intuído através de experiencias baseadas na introdução de sinais de onda (input) e na observação da resposta do dispositivo (output).

No entender de Flusser, ao transpor este conceito para a filosofia, consegue-se exprimir de maneira mais fiel um problema recente, proveniente das novas tecnologias, sendo a fotografia justamente o primeiro dispositivo a colocar: “o surgimento de aparatos tecnológicos que se podem utilizar e deles tirar proveito, sem que o utilizador tenha a menor ideia do que se passa nas suas entranhas.”(9)

Flusser faleceu aos 71 anos num acidente de automóvel. Apesar de ter lecionado filosofia nalgumas das mais importantes instituições da disciplina e apesar de ter colaborado com importantes revistas científicas, Flusser era um autodidata, pouco valorizado no seu meio sobretudo devido à hostilidade política perante o seu modo de entender o mundo. Após a sua morte o autor foi “descoberto” a nível mundial, sendo esta notoriedade post mortem explicada sobretudo pelo facto do pensamento de Flusser ser certeiro na analise das mutações culturais e antropológicas que estão a ocorrer no mundo contemporâneo.

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É a Vilém Flusser que se deve um dos mais influentes contributos conceptuais sobre as imagens técnicas e sobre o seu impacto na sociedade contemporânea. No seu ensaio Flusser assinala duas revoluções que marcaram a nossa estrutura cultural até os dias de hoje: a invenção da escrita lienar e a invenção das imagens técnicas, tendo a invenção das imagens técnias sido uma consequência da primeira invenção (a invençãoo da escrita veio permitir que o olhar seguisse uma linha direcional, linha essa originadora de um pensamento linear, lógico e conceptual, “perfeito para as operações da ciência e da técnica que viriam a originar a construção de imagens por aparelhos”(10). De acordo com Flusser, as imagens técnicas vêm assim beneficiar de um posicionamento distinto em relação às imagens tradicionais “…Há um agente humano que se coloca entre as imagens e o seu significado. Este agente humano elabora símbolos na sua cabeça, transfere-os para a mão munida do pincel e de lá, para a superficie da imagem.”(11) (e.g. pintura hieróglifos egípcios). Enquanto estas “precedem o texto em milhares de anos” já estas “sucedem os textos altamente evoluídos”.

A invenção da escrita, veio segundo Flusser, possibilitar o aparecimento de um tempo denominado por “histórico” este que é ultrapassado (e passa a ser denominado de tempo pós-histórico) pelo aparecimento das imagens técnicas. Aqui, as imagens técnicas ganham uma omnipresença de tal modo indiscutível que passam a funcionam como ponto de referencia para a percepção e experiencia do mundo: “O seu propósito é serem mapas, mas passam a ser biombos. O homem, ao invés de se servir das imagens em função do mundo, passa a viver o mundo em função das imagens.”(12) Mais concretamente o tempo pós-histórico será um momento de crise dos textos, do seu papel mediador entre a imaginação e o conceito. A este processo de inversão da função das imagens, Flusser chama de “idolatria”. É possível ver-se nesta teoria da inversão da função das imagens uma influencia marxista(13) (designadamente da sua teoria da alienação que vê a técnica como algo que parte do homem, dele se afasta, se autonomiza e contra ele acaba por se revelar). No fundo o que se exalta desta teoria de Flusser é o modo como a imagem “idolatrada” e a visão, se impuseram como figuras centrais e fundamentais da cultura moderna. Uma posição que se relaciona igualmente com uma teoria da sociedade do espetáculo de Debord(14) também ela construída em torno do conceito de alienação15. Por outro lado parece-nos haver nesta teoria um considerável tributo do pensamento heidggeriano: “o mundo vai sendo vivenciado como um conjunto de cenas”. Neste introversão abusiva da imagem reside o projecto de estabelecimento “de um código geral de mediação para reunificar a cultura (designadamente os diferentes polos em que esta se dividiu: “um pensamento conceptual hermético” e “um pensamento conceptual barato”. Como as imagens técnicas são o produto de aparelhos programados, e não mais do intelecto humano (imagens tradicionais), toda a nossa cultura como a conhecemos se transforma profundamente rumo a uma sociedade desumanizada, funcionando todos os aparelhos no final – segundo Flusser – no sentido de aniquilar o Homem, tendo em conta que todos os aparelhos objectivam.

É de salientar a distinçãoo de graus que Flusser reconhece relativamente às imagens: a imagem tradicional é uma abstracção do real em primeiro grau “…elabora símbolos na sua cabeça, transferindo-os para a mão munida do pincel e depois para a superfície da imagem – a codificação dá-se no intelecto do Homem.”; 2000 a.C. a humanidade começou a viver em função das imagens (idolatria, referida no texto em cima) estas que não representavam mais o mundo, porém cobriam-no, daí o surgimento da escrita linear e da história, sendo os textos uma abstracção em segundo grau; numa história recente os textos adquiriram um grau de abstracção tão alto que se tornam inimagináveis e extremamente afastados da vida quotidiana – a humanidade chegou à “textolatria”- aparecendo assim as imagens técnicas, estas que pareciam ser um óptimo instrumento para visualizar os ditos textos e os deixar novamente compreensíveis, sendo estas imagens uma abstracção em terceiro grau.

Em modo de conclusão aparelhos, processos e suportes possibilitados pelas novas tecnologias repercutem, como bem o sabemos, em nossos sistemas de vida e de pensamento, em nossa capacidade imaginativa e nas nossas formas de percepção do mundo. Cabe à arte fazer desencadear todas essas conseqüências, nos seus aspectos grandes e pequenos, positivos e negativos, tornando explícito aquilo que nas mãos dos funcionários da produção ficaria apenas enrustido, desapercebido ou mascarado. Essa atividade é fundamentalmente contraditória: de um lado, trata-se de repensar o próprio conceito de arte, absorvendo construtiva e positivamente os novos processos formativos abertos pelas máquinas; de outro, trata-se de tornar também sensíveis e explícitas as finalidades embutidas em grande parte dos projetos tecnológicos, sejam elas de natureza bélica, policial ou ideológica. Voltando a Flusser, a arte coloca hoje os homens diante do desafio de poder viver livremente num mundo programado por aparelhos. “Apontar o caminho da liberdade” é, segundo Flusser, “a única revolução ainda possível”.

Notas 

1. Martin Heidegger é um dos pensadores fundamentais do século XX – ao lado de Russell, Wittgenstein, Adorno, Popper e Foucault – quer pela recolocação do problema do ser e pela refundação da Ontologia, quer pela importância que atribui ao conhecimento da tradição filosófica e cultural. Influenciou muitos outros filósofos, dentre os quais Jean-Paul Sartre.

2.Existencialismo: é um termo aplicado a uma escola de filósofos dos séculos XIX e XX que, apesar de possuir profundas diferenças em termos de doutrinas, partilhavam a crença que o pensamento filosófico começa com o sujeito humano, não meramente o sujeito pensante, mas as suas ações, sentimentos e a vivência de um ser humano individual. No existencialismo, o ponto de partida do indivíduo é caracterizado pelo que se tem designado por “atitude existencial”, ou uma sensação de desorientação e confusão face a um mundo aparentemente sem sentido e absurdo. Muitos existencialistas também viam as filosofias académicas e sistematizadas, no estilo e conteúdo, como sendo muito abstractas e longínquas das experiências humanas concretas.

3. Fenomenologia: afirma a importância dos fenômenos da consciência, os quais devem ser estudados em si mesmos – tudo que podemos saber do mundo resume-se a esses fenômenos, a esses objetos ideais que existem na mente, cada um designado por uma palavra que representa a sua essência, sua “significação”. Os objetos da Fenomenologia são dados absolutos apreendidos em intuição pura, com o propósito de descobrir estruturas essenciais dos atos (noesis) e as entidades objetivas que correspondem a elas (noema).

4. A primeira versão em lingua portuguesa foi publicada no Brasil em 1985 pela Editora Hucitec, de São Paulo.

5.Tradução livre: Por uma filosofia da fotografia

6. Ins Universum der technischen Bilder. European Photography, 1985

7. Caixa Preta: Segundo Emond Couchot os dispositivos utilizados hoje pelos artistas para a construção dos seus trabalhos aparecem a eles inicialmente como caixas pretas, cujo funcionamento misterioso lhes escapa parcial ou totalmente. O fotografo, por exemplo, sabe que se apontar a sua câmera para um motivo e disparar o botão de accionamento, o aparelho lhe dará uma imagem normalmente interpretada como uma réplica bidimensional do motivou que posou para a câmera, mas o fotografo em geral, não conhece todas as equações utilizadas para o desenho das objectivas, nem as reacções químicas que ocorrem nos componentes da emulsão fotográfica

8. Cibernética é uma tentativa de compreender a comunicação e o controle de máquinas, seres vivos e grupos sociais através de analogias com as máquinas eletrónicas

9. Vilém Flusser “Ensaio sobre a fotografia” pg 11

10. Vitor Flores “A imagem técnica e as suas crenças” pg 27

11. Vilém Flusser “Ensaio sobre a fotografia” pg 35

12. Vilém Flusser “Ensaio sobre a fotografia” pg 37

Bibliografia 

Lucien Sfez “Critica da Comunicação” Éditions du Seuil, 1990

Victor Flores “A imagem técnica e a sua crença” Editores Nova Vega 2012, Lisboa

Vilém Flusser “Ensaio sobre a fotografia” Editores Relogio D’áqua, 1998, Lisboa

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