ob·so·les·cên·ci·a

“Um simples “objecto” é algo que estorva, um obstáculo que foi “lançado” no nosso caminho (em grego problema). O mundo é objectivo e problemático, na medida em que constitui um obstáculo. Um “objecto de uso” é um objecto necessário à remoção de outros objetos do seu caminho. Esta definição encerra uma contradição; um obstáculo que serve para remover obstáculos?”Vilém Flusser “Uma Filosofia do Design” Relógio D’Água Editores 20120, Lisboa

Vivemos rodeados de objetos que cada vez mais encaramos como extensões do nosso corpo contudo, a todo o momento os mesmos “tornam-se antiquados, desactualizados, inoperacionais exigindo a sua substituição por outros mais sofisticados. Na lógica da actualização e da eliminação constante do velho como luta contra a tradição e como premissa para a civilização moderna, pressupõe-se  que os objetos têm uma vida que em determinado momento deve terminar.”

A finitude é um tema que está bem presente no desenvolvimento do Homem, sendo recorrentemente estudado e discutido. A realização de um fim certo e a sensação de impotência perante a Natureza, recorda-nos que somos mais um grão de areia numa praia sem fim. “Também se terá tratado sempre de contrariar a finitude dos objetos: o trabalho no aperfeiçoamento dos utensílios e das ferramentas procurou objetos cada vez mais duráveis e resistentes, mais adaptáveis a diversos tipos de funções e mais sinérgicos nos seus objectivos”. Embora quiséssemos extensões de nós próprios, que ao contrários de nos durassem infinitamente, no inicio do século XX a ideia de longevidade é negada em prol de uma nova forma de incrementar a economia capitalista: a obsolescência programada.

Em 1932, Bernard London declara a obsolescência programada como resposta à crise da Grande Depressão. O autor entendia que a solução para incrementar a produção e reduzir o armazenamento de stocks era criar uma lei de obsolescência, que determinaria o tempo de existência dos objetos e os declararia como ilegais depois do seu prazo de validade expirar, implicando assim a sua destruição. “O paradigma do consumo, sustentado pela circulação e pela renovação das mercadorias, estranha um modelo de produção em que os objetos se mantenham indefinidamente funcionáveis e actualizados. O sistema capitalista alimenta-se na medida em que novos objetos surgem para substituir aqueles que, independentemente das suas possibilidades de longevidade, perdem constantemente a qualidade de novidade e que, assim, morrem.” Assim sendo a finitude ou a obsolescência dos objetos já não resultam de causas naturais; antes passam a ser deliberadas e tema de planeamento.

Este ponto de partida divulgado por London ramificar-se-ia em vários tipos de obsolescência planeada que se interiorizaram no cerne da produção industrial e nas lógicas de consumo. Temos a obsolescência de estilo que é dependente das alterações de design sem que verdadeiramente implique alterações das funcionalidades; temos a obsolescência funcional, assente na utilização de materiais inferiores ou menos resistentes, condicionando e limitando o funcionamento do objecto; temos a obsolescência por incompatibilidade nos casos em que o surgimento de novos componentes ou a actualização do software incompatibilizam a utilização dos dispositivos e dos programas anteriores e por fim temos a obsolescência sistémica, que trata-se de introduzir componentes nos objetos que, em função da durabilidade pretendida pelo mercado, determinam o momento em que a ferramenta deixa de funcionar. “Encarar os objetos à luz deste tipo de lógica autodestrutiva implica tanto negar-lhes um valor de existência enquanto objetos, como reduzi-los à sua condição utilitária e funcional.” Gilbert Simondon na “Entrevista sobre a Mecanologia” declara que a natureza dos objetos se constitui por serem intermediários de uma relação entre o corpo do operador e as coisas sobre as quais ele trabalha, determinando assim também a forma como o homem trabalha com a natureza e se insere no mundo, transformando-o e apropriando-o, constituindo-se enquanto ser humano. Tomar consciência do valor dos objetos é também tomar consciência do valor humano.

Na sequência deste retrato da Indústria contemporânea este projecto aparece como um catalisador de consciências alertando a sociedade para o conceito da obsolescência programada e questões fundamentais associadas ao contexto em questão. Na sociedade do descartável, governada pela ganância sôfrega do capitalismo é socialmente aceite, atrevo-me até a dizer que já faz parte da cultura, o trocar e despojar constante dos objetos. Quais as consequências da obsolescência programada? Qual o seu impacto? Será a obsolescência a resposta mais inteligente às crises económicas, ou esta visa apenas o interesse capitalista per se? Será esta mais uma evidência de que a maior crise é a moral?

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Todas as citações foram retiradas do texto de Manuel Bogalheiro “A obsolescência Programada ou a Morte Induzida dos Objectos Técnicos” na Revista online “Interact” – http://interact.com.pt/ visualizada a 10.01.2014 20.17h

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