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Monthly Archives: November 2013

Este texto faz parte de uma Plataforma pessoal da actividade académica no mestrado de design de comunicação e novos media / FBAUL / 2013-2014.

“O hipertexto não nasceu com a Internet. Há quem lhe reconheça uma origem tão antiga quanto o texto da tradição hebraica do Talmude. Mas a nova linguagem da web permitiu explicitar ligações que, ou permaneciam puramente mentais, ou não tinham ainda encontrado o instrumento técnico capaz de protagonizar e acelerar percursos que, no espaço da rede, ganharam uma dimensão ilimitada. O hipertexto tal como ele se constitui na sintaxe da internet, tornou-se um processo determinante para a investigação em todas as áreas e para as novas formas de comunicação do saber, não apenas em termos de velocidade mas também no que diz respeito aos próprios modos e objetos de investigação. Reconfigurando um universo de saber que, pelas suas próprias modalidades de transmissão, aspira a uma totalidade  sempre em aberto, sempre em expansão, o hipertexto exacerba e leva aos últimos limites o projeto da enciclopédia.”1

No mundo altamente tecnológico em que vivemos hoje, não é de todo invulgar ouvir dizer que os livros impressos estão condenados ao passado e às bibliotecas. Com o aparecimentos de novas tecnologias e novos interfaces de leitura digital, os livros impressos tornam-se quase que obsoletos aos olhos de geração enraizadas na cultura digital.  É a partir destas novas tecnologias e da interatividade implícita nas mesmas, que se desenvolve um novo tipo de conceito literário: a literatura hipertextual. Este novo tipo de narrativa destaca-se sobretudo pela sua não-linearidade, ou seja, é um objecto de leitura mais flexível onde não há uma imposição ou ordem de leitura pré-determinada pelo autor da obra, dando aso a variadíssimas interpretações. Destacam-se nomes como Jorge Luís Borges, James Joyce, Italo Calvino entre outros.

É com a passagem do livro impresso para o digital que as obras destes autores vai aumentar numa rede de conectividade e hiperlinks onde não existem hierarquias textuais, que permitem ao leitor ter novas sensações com a sua leitura.  Citando Carolyn Guyer e Martha Petry “This is a new kind of fiction, and a new kind of Reading. The formo f the texto is rhythmic, looping on itself in patterns and layers that gradually accrete meaning, just as the passage of time and events does in one’s lifetime. Trying the textlinks embedded within the work will bring the narrative together in new configurations, fluid constellations formed by the path of your interest. The difference between sailing the islands and standing on the dock watching the sea. One is not necessarily better than the other.”2

Robert Coover, autor e professor de literatura americano, questiona a longevidade do livro impresso em 1992, face aos recentes avanços tecnológicos da época. O seu interesse pelo hipertexto leva-o a leccionar um curso sobre o mesmo assunto. Numa primeira abordagem aos seus alunos, relata Coover, depara-se com uma certa rigidez e conservadorismo por parte dos mesmos, o que demonstra – concluímos agora – o quão enraizada e inflexível estava a literatura linear na sociedade, assim como, o quanto embrionária era (e de certa forma ainda o é) e ideia e a literatura hipertextual no meios digitais.  No seu texto “The End Of Book” Coover sublinha as necessidades de tanto escritores assim como leitores, focarem-se na estrutura da narrativa, esta que deverá ser multidireccional e labiríntica, ao invés de se focarem apenas em aflorados literários. É de salientar o facto deste autor ter sido um dos primeiros a leccionar sobre o assunto, e deste texto ter sido escrito numa fase ainda frágil da matéria hipertextual. Denota-se por parte do autor uma vontade experimentar relativamente à tecnologia e ao hipertexto, como forma de estender a mente, sensações e conhecimento humano. É nesta extensão do próprio homem que encontramos o artista Bill Viola, este que percepciona o mundo como um todo que precisa apenas de ser desconstruído de forma a conhecermos.

“Possivelmente o facto mais surpreendente sobre a nossa existência natural é o facto desta ser contínua: é como um fio inquebrável – estamos a viver este mesmo momento, desde que fomos concebidos. É a memória que nos dá a impressão de uma vida constituída por certas peças, partes ou períodos fundamentais. A memória é assim considerada como um filtro básico à nossa sobrevivência. Recentemente a habilidade de esquecer tornou-se valiosa.”3

Bill Viola questiona a época em que está inserido, uma época em que a informação começava a ser demasiada e não filtrada (1982) onde a aceleração impõe-se como uma constante sendo a tão valorizada memória substituída por artifícios computacionais que rapidamente calculam algoritmos, máquinas de filmar compactas que sofregamente tudo registam assim como a rede e as grandes bases de dados. Viola questiona através da sua maior área de interesse, o vídeo, os meios do Homem fazer as suas construções mentais. Apoiado de certa forma na evolução tecnológica, Viola afirma que nós só percepcionamos o presente, não conseguindo ter uma visão atemporal da nossa existência e do mundo em que estamos inseridos, o que faz com que não consigamos ter a noção total de conhecimento puro – mesmo quando este já existe. Viola afirma que o conhecimento total já está formulado. Questionando o conceito ocidental de educação – que se baseia na ideia de construir algo a partir do nada – o autor propõe um método de pensamento que é de todo influenciado pela tecnologia, (esta que é tida como uma metáfora): o todo é a soma das partes, ou seja, um sistema subtrativo onde analisamos primeiramente o todo e posteriormente passamos à desconstrução e analise do particular.

Este sistema é claramente uma analogia à maneira de processar informação de algumas tecnologias. O autor utiliza tal analogia como uma forma de incitar os artistas a ser os conhecedores do Todo, que escapa ao homem ordinário.  No seu texto “Will There Be Condominius In Data Space?” Viola age como um catalisador que pretende desvendar os segredos do transcendental de forma a conseguir analisar o Todo Criaccional. É numa dança constante entre a tecnologia, o ser e estar, a arte e o homem na sua plenitude, que ambos os autores se questionam numa tentativa ne aproximar o homem da máquina mas acima de tudo numa tentativa de aproximar o Homem de Si mesmo.

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1.”Enciclopédia e Hipertexto” Edição de Olga Pombo, António Guerreiro e António Alexandre, 2006 Edições Duarte Reis e Projecto

2.”The End Of Books” Robert Coover, originalmente publicado em “The New York Times Book Review” 21 Junho de 1992

3.”Do Manuscrito ao Hipertexto” Flora Sussekind e Tânia Dias, 2004 Rio de Janeiro, Edições Casa de Rui Barbosa

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“Enciclopédia e Hipertexto” Edição de Olga Pombo, António Guerreiro e António Alexandre, 2006 Edições Duarte Reis e Projecto

“The End Of Books” Robert Coover, originalmente publicado em “The New York Times Book Review” 21 Junho de 1992

“Do Manuscrito ao Hipertexto” Flora Sussekind e Tânia Dias, 2004 Rio de Janeiro, Edições Casa de Rui Barbosa

“Revista Binário” 187, Abril de 1974 _texto “O Design e o Computador” por George Nees

“Will There Be Condominiums In Data Space?” Bill Viola, originalmente publicado em “Reason for Knocking an Empty House” MIT Press 1995

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Este texto faz parte de uma Plataforma pessoal da actividade académica no mestrado de design de comunicação e novos media / FBAUL / 2013-2014.

“The eye you see isn’t an eye because you see it; it is an eye because it sees you.”1

“Como carregamos uma imagem de nós próprios baseada nos princípios letrados da Renascença, não conseguimos reconhecer que as tecnologias electrónicas, do telefone à realidade virtual, estendem o nosso ser físico muito para além dos limites da pele”2

Em 1966 Billy Kluver, Robert Rauschenberg, Robert Whitman e Fred Waldhauer ao criarem o grupo Experiments in Art and Technology (E.A.T.), quebraram de certa forma com a dicotomia arte e tecnologia ainda muito presente na sociedade de então, para tornar o Homem (e o acto mais puro que deste advém, o acto de criar) e a máquina num só. A arte e tecnologia unem-se aqui numa tentativa de ser uma extensão do próprio Homem, e como parte deste penetrar no etéreo entendimento do mundo. Billy kluver no seu texto “The Garden Party” explica-nos a relação entre o artista e a tecnologia, baseando-se numa obra de arte (“Homage to New York”) criada pelo mesmo com Jean Tinguely, artista plástico.

Em “Homage to New York” ambos criam uma obra de arte mecanizada que se auto-destrói, criando assim uma conexão directa entre o acto criativo e tecnológico do artista e do cientista, e o acto receptivo do público, quebrando com a noção de temporalidade tão imposta pelos museus (“The art of the museu mis related to a past time that we cannot see and feel again… L’art éphémère, on the other hand, creates a direct connection between the creative act of the artista and the receptive act of the audience, betwenn the construction and the destruction”3). Para Kluver assim como para Tinguely, um factor a valorizar é o público e a interacção real deste com a obra de arte, aspecto primeiramente abordado pelo artista Roy Ascott. É escrevendo também sobre o “Pepsi Pavilion” criado pelo grupo E.A.T. que Kluver destaca uma vez mais a importância da participação do espectador no ambiente artístico criado, destacando assim a importância da tecnologia como aproximadora do Homem com Real: “O artista pode assim auxiliar-se de áreas da ciência de forma a ter um entendimento mais concreto do mundo envolvente e dos processos interativos e complexos de comunicação”4.

Por sua vez, já em 1977 Alan Kay e Adele Goldenberg propõem criar um outro tipo de relação entre o Homem e a Tecnologia, ao idealizarem o “computador pessoal”. No texto escrito por ambos “Personal Dynamic Media” os autores projectam o computador pessoal como uma ferramenta que extende os sentidos do seu utilizador, fazendo com que seja este mesmo utilizador (que podia ser uma criança, um empresário ou até uma dona de casa) a gerir a sua própria rede de conhecimento de acordo com os seus interesses. Os autores idealizam este computador com uma série de características até à data inovadoras e relevantes, tais como o facto de existirem diferentes tipos de fontes que facilitavam a leitura dos textos e o facto de ser possível editar os textos em questão adicionando informação; contudo o aspecto salientado no texto profético, como algo de realmente inovador (apesar de hoje nos parecer óbvio) seria a capacidade  de dar aso à criação artística através deste interface (“Suppose it had enough power to outrace your senses of sight and hearing, enough capacity to store for later retrieval thousands of page-equivalents of reference materials, poems, letters, drawings, animations, musical scores, and anything else you would like to remembre and change”5).

Em forma de conclusão, é de salientar a perspicácia destes cientistas e artistas, em trazer à tona uma faceta mais pura quase que sensível da tecnologia, fazendo uma simbiose da mesma com a arte e tornando  a tecnologia mais pessoal e confidencial, abrindo horizontes e complementando áreas do saber até então negligenciadas.

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1. António Machado citado por Derrick Jensen em “Welcome to the machine” Chelsea Green Publishing 2004, Canada

2. Derrick de Kerckhove em “A Pele da Cultura” Relógio D’Água Editores1977, Lisboa

3. Billy Kluver em “The Garden Party” em Zero1 1961 NY

4. Luísa Brito em https://lmbbrito.wordpress.com/2013/10/31/post-1/ (visitado a 05-11-2013)

5. Alan Kay e Adele Goldenberg em “Personal Dynamic Media” Março de 1977

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Derrick Jensen “Welcome The Machine” Chelsea Green Publishing 2004, Canada

Derrick de Kerckhove “A Pele da Cultura” Relógio D’Água Editores1977, Lisboa

Joke Brouwer “Art and D” V2 Publishing 2005, Roterdão

Alan Kay e Adele Goldenberg “Personal Dynamic Media” Computer 10 Publishers, 1977

Billy Kluver “The Garden Party” Zero1 Publishers 1961, NY